Não sei ao certo como começou. Eu tinha por volta de 6 anos e me lembro da imagem de criança encolhida na cama da irmã, como quem estivesse sendo ameaçada. Ouviam-se gritos, choros, barulhos desconhecidos, um objeto sendo quebrado naquele quarto ao lado. Em vão, tentei chamá-los, abrir a porta, mas o que se passava ali não era para uma menina ver. Mas era para ouvir? De nada adiantava tapar os ouvidos.
De repente, meu pai saiu do quarto, num rompante, rumo à porta de casa, para algum lugar distante. Eu corri em direção à minha mãe, que estava deitada na cama, com olhar perdido e lágrimas no rosto. Olhei para os lados à procura do objeto que havia sido quebrado e nada achei. Então, perguntei:
- Mãe, o que o papai quebrou?
E ela, sem nem imaginar que aquilo ficaria guardado na minha memória para sempre, disse:
-Meu coração, minha filha. Seu pai quebrou meu coração.
Eu, aos 6 anos, assustada, acuada e sem nem conhecer o amor descobri, então, que os corações foram feitos para ser quebrados.

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