Quem sou eu

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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil
Eu vivo entre asteróides. Nesses sei quem são os habitantes. Seus nomes e rostos. Sei de bons amigos e conhecidos. Inimigos eu não tenho, porque não me faz bem carregar o mau. Só aguardo o cometa mais próximo, para me levar até um conhecido que possa me desenhar um carneiro e me cativar.

30 de jul. de 2009

A viagem de volta

Hoje não escreverei textos longos, apesar de que tive idéias para tais. Mas a preguiça e o frio me impedem de fazê-lo, nesse momento.


Queria agradecer as pessoas que estão me apoiando na criação do Blog, dando dicas, criticando e me acompanhando. Eu estava com a impressão de que escrevia e ninguém lia. Porém, se paro para pensar, escrevo, na verdade, desabafos e suspiros.


Amigos são aqueles que me escutam. E quando lêem o que escrevo, sem dúvida, estão ouvindo o que eu disse e ficou armazenado aqui. Obrigada por isso.


Fico muito emocionada em saber que tenho amigos e verdadeiros! Porque com tanta falta de respeito e maldade à nossa volta, às vezes, é até difícil identificá-los.



Um beijo carinhoso.




Volto amanhã cedo para Belo Horizonte. Mais feliz e com o dobro de bagagem que vim. É sempre assim, quando volto da casa da minha mãe.


Irei mais cedo ainda, para a Rodoviária de São João del Rei, comprar a passagem, com esperança de comprar uma que não seja a da poltrona 43. E que assim seja!


29 de jul. de 2009

A poltrona 43

Foi uma viagem atrasada por diversas razões. Eu tinha esperança de partir no ônibus de oito e meia da manhã, mas minha cama me impediu de realizar tal proeza. Assim, perdi o das onze horas também, pois ainda não tinha arrumado malas, nem conseguido falar com minha amiga que iria ficar com Antônio Alfredo, enquanto eu estivesse fora. O ônibus seguinte partiria ao meio dia e meia, o que eu acho aterrorizante, já que só de imaginar o Sol emitindo todos seus raios alfa, beta e não sei mais qual, por aquelas janelas e fluindo entre tantas pessoas e minhas narinas, tenho sensação de desmaio imediato.

Nesse intervalo de tempo, pude arrumar minha mala com os itens essenciais para uma viagem à casa de minha mãe: meu ipod, livros, minha escova de dentes, poucas roupas e meus remédios, claro. Porque todo o resto usufruo da casa, que já possui todos os produtos para higiene pessoal. Isso ocuparia grande parte da minha mala. Além disso, como não saio de casa, fico de pijama o dia inteiro e não preciso de roupas finas, se é que as tenho. É tudo uma maravilha. Minha mala é leve, a viagem é rápida e eu não preciso arrumar a casa. Estou no paraíso.

Então, consigo me contactar com minha amiga que adotará Alfredinho por uns dias (ela tem essa intimidade por assim chamá-lo) e combino de deixá-lo com seus mimos e ração, logo em pouco tempo. Certamente, eu viajaria no ônibus de três da tarde. Porém, meu cão me seguia ansiosamente pela sala, como se percebesse que eu iria me ausentar. Era nossa primeira separação. Eu não podia ir ao banheiro, que lá estava ele, cabisbaixo; eu lavava a louça acumulada há alguns dias, por causa do frio-quase-nevante-de-BH, e lá estava ele, embaixo da pia, com o olhar distante. Não consegui deixá-lo naquele momento e decidi passar a tarde com meu filhote inter-espécie: Antônio Alfredo. Peguei sua coleira n.1 do Pluto, que já estava empacotada com suas coisas e pus em torno daquela criaturinha tão doce e tão pequenina.

Após o passeio, percebi que tinha perdido a hora para a lotação seguinte, a de 16:45. Mas não me importei. O passeio foi bom, pude ficar mais tempo com Alfredinho e deixá-lo na casa da minha amiga. Como foi dolorosa a despedida... Meu pequeno bebê (nossos filhos, mesmo os inter-espécie serão sempre bebês aos nossos olhos) dormia fora de casa, pela primeira vez.

E restou o último ônibus do dia. 19:00.
Cheguei à Rodoviária de Belo Horizonte às 18:58, para ser exata, e o guichê onde compro a passagem tinha sido mudado de lugar devido a obras. Quando encontrei o novo cubículo onde tristes pessoas trabalham, fui informada que compraria diretamente no ônibus. Corri escadaria abaixo, uma cena maravilhosa de se ver!
Milhares de pessoas que moram no interior e estudam/trabalham na capital e toda sexta voltam para casa e, se não pegarem o último ônibus de sexta, devem permanecer ilhados nessa cidade, sem a comida da mãe, as brigas dos irmãos e as festinhas nos postinhos.

Lá estava eu, quase rolando escadaria e vejo a porta do ônibus se fechando. Aqueles rapazes que trabalham nas Viações adoram esse tipo de passageiro, não é verdade? Aquele que chega atrasado, com mala que deve ser colocada no bagageiro de baixo e ainda não comprou passagem. Bom humor reina solto!

Fui informada de que poderia entrar, escolher a poltrona que quisesse e pagaria lá dentro. Sentei-me numa de número primo, pois sempre assim o faço, e na janela. Abaixei a poltrona, pus os dois fones do meu ipod no ouvido, mesmo sabendo que só um deles funciona e aguardei o rapaz, para eu pagar a passagem e ficar livre, para olhar pela janela.

Quando ele se aproxima, eu já estava com o dinheiro na mão, tirei o fone que não funciona do ouvido, para demonstrar respeito, mas ele falou algo comigo. Então, tive que tirar o fone que funciona e ouvir o que o bom rapaz tinha a dizer: eu não poderia ficar naquela poltrona, que já havia sido vendida e poderia escolher outra.
-Qualquer outra? Na janela?- pergunto com os olhos brilhando.
Ele olha para o papelzinho em sua mão, para conferir as cadeiras disponíveis e eu, refletindo sobre quais cadeiras de número primo e na janela tinham restado.
-Não!-responde ele, malignamente, que eu percebi. -Só restou a 43.
E me apontou o dedo em direção ao fundo ônibus. Não podia ser tão ruim. Era um número primo.

Não achei que haveria problema, apesar de ter percebido um ar de maldade naquele rapaz. Peguei minha bolsa e fui caminhando em direção à poltrona 43. Nesses segundos, podemos olhar a cara de cada passageiro e, caso alguma tragédia aconteça e você sobreviva, você poderá dizer aos jornais: "Ah.. mas ela era uma senhora tão bonita, a da poltrona 22." ou então "É uma pena! O rapaz viajou na terceira fileira à minha frente, na poltrona do corredor, e permaneceu quieto o tempo todo. Pobre rapaz." Pode parecer bobagem, mas qualquer informação é válida, para quem perdeu alguém que ama. É como se eles estivessem conosco, por mais alguns segundos e quem os viu e não os conhecia, os carrega para sempre.

Achei a poltrona 43, após ter passado por um rapaz que usava máscara no rosto, para proteção da Gripe Suína. A viagem seria interessante. Até eu ver quem eram os meus dois vizinhos de poltronas, ao Sudoeste. Eram dois jovens que não têm noção do volume do som de um celular que toca música e acreditam, com sua ingenuidade, que todos gostam de funk. Lá estava eu, na poltrona 43 e tentava empurrá-la para trás e não conseguia. Pensei que poderia ser porque ela era bem em frente ao banheiro, mas quando percebi era por falta de orientação do jovem, que não havia percebido que tinha bagageiro para bagagem de mão, na parte de cima e colocou sua maletinha atrás de minha poltrona. Tudo foi resolvido e eu poderia colocar meus fones de volta no ouvido e esperar o rapaz, para eu pagar a passagem e olhar pela janela.

O rapaz chegou, eu paguei a passagem e ainda dei dinheiro exato, para ver se fazíamos as pazes, porque acredito que ele criou essa antipatia comigo no momento em que cheguei atrasada. É comum. Minha dentista resolveu meus problemas bucais em três dias, com 25 minutos por dia, pois nos dois dias de avaliação cheguei meia hora atrasada e ouvi ásperas palavras sobre minha falta de pontualidade. E ásperas palavras de um dentista não é bom sinal. Voltando ao ônibus, pensei que tudo estava certo naquele momento e quando pude, finalmente olhar pela janela, tive a leve sensação de que não havia mais nada a ser resolvido. Era só escutar minhas músicas selecionadas, olhar pela janela, enxergar o nada e chegar na casa da minha mãe.

Já viajei esse percurso, com essa Viação, nesse horário, diversas vezes, nunca nessa poltrona, confesso. Mas nunca passei por nada igual. A cada 15 minutos o ônibus parava em meio à escuridão da BR e as luzes que estavam apagadas eram acendidas todas as vezes. O motorista visualizava novos passageiros em cada poste, placa de sinalização e parecia querer nos acordar, para certificar que não eram visões.

Os jovens rapazes ao meu lado dormiram prontamente. Dei um sorriso sozinha, nesse momento. Sabia da bondade deles. O mau estava ao meu Oeste. Eram os dois funcionários da Viação, sendo um deles aquele rapaz, a quem vou chamar de Q., e que parecia me encarar com aqueles olhos malignos a viagem inteira. Como meu fone estragado me permite escutar a convesa alheia, caso esta seja numa altura elevada, começou uma parte sombria do meu pesadelo. Os rapazes começaram a discutir sobre férias vencidas e a reclamar sobre a empresa na qual trabalhavam e em cujo ônibus eu viajava. Depois surgiu uma conversa assustadora sobre futebol e esposas aborrecidas. A altura foi suficiente para meu fone funcionante perder sua potência. Eles queriam me atingir.
Além disso, ao Noroeste de minha poltrona, havia uma moça com um mp4, desses de última geração, que acendia uma luz mais forte que uma lâmpada de 200 watts, cada vez que ela trocava uma música. Falo desse tipo de lâmpada, pois não sei especificar outra. Física nunca me agradou. Mas era uma coisa impressionante! Ela ainda tentava ofuscar a luz, mexendo no seu aparelho, dentro de sua mochila, mas aquela luz não conhece esses limites e a moça, coitada, era ignorante, pois abria toda a parte grande da mochila Company, para trocar de música no seu mp4 brilhante. Aquela luz ofuscava minha vista e não me permitia sequer olhar através da janela e por pouco não me fez levantar da poltrona e gentilmente ensinar a moça a trocar as músicas, sem ter que iluminar todo o ônibus.

O ônibus parou.

Fui incapaz de descer. Estava submersa num pesadelo verdadeiro do qual precisava sair em 15 minutos, para suportar as 2 horas restantes de viagem. Acalmei-me.

E pensei.. lembrei.. chorei...

Porque quando ocorrem eventos como esse, temos vontade de gritar, ligar para alguém e gritar socorro e ouvir que tudo está bem, que vai passar rápido. Como é bom compartilhar... E que saudade senti. E quando comecei a me lembrar de eventos ruins que a saudade também me lembrava e, assim, secar minhas lágrimas, surgiu um sujeito de blusa azul vindo em minha direção e entrou no banheiro do ônibus.
Pus-me a pensar o que leva uma pessoa, que está em uma parada, que vai durar ainda uns 10 minutos, a utilizar o sanitário da lotação?! E meu pensamento foi cortado por um cheiro que adentrou em cada célula de meu corpo e, corre o risco, de ter feito uma mutação séria ali. Não falo de cheiros provenientes do banheiro. Isso não. Falo do cheiro que ele deixou no corredor ao percorrê-lo. Estou certa que, assim como Amélie Poulain tinha o pequeno prazer de mergulhar suas mãos em sacos de grãos, o rapaz da blusa azul gosta de mergulhar suas mãos e braços em panelas de gordura. Ele exalava gordura e estava claro que aquilo não era proveniente de coxinhas ou pastéis fritos. Só poderia ser um pequeno prazer dele que, aproveitava para entrar escondido na lanchonete, enquanto a atendente estava ocupada com todos na parada e mergulhava sua mão na panela. E é claro! Por isso ele não poderia lavar suas mãos e braços no banheiro da parada! Desejo nunca mais encontrar uma pessoa com esse pequeno prazer.

Quando estávamos prestes a sair dali, o Q. chegou para sentar na sua poltrona e perguntei se agora não haveria lugares vagos mais adiante no ônibus. Ele olhou seu papel novamente e repetiu com a mesma sonoridade maligna o "Não!". Nesse momento, pensei que devia estar pagando meus pecados e comecei a chorar. Pois diante de uma fase tão difícil de vida, eu queria somente chegar intacta na casa da minha mãe, para domir 20 horas por dia e nas horas restantes, chorar pelas dores que tenho (dizem que assim resolve) e arrumar maneiras de sorrir. E conversei com Deus e se Ele assim queria que eu passasse as duas horas restantes, assim seria.

Não é que a moça do mp4 desceu na parada?! E assim não foi mais vista e nem sua luz ofuscante! Em seu lugar, um velho senhor, com uma caixa de sapatos embrulhada num saco plástico, na mão. Confesso ter sentido medo daquele embrulho. Parecia que ele carregava ali, um frango assado ou qualquer item alimentício, que ele poderia desembrulhar a qualquer hora. E, dessa forma, não pude olhar pela janela e não enxergar nada. Eu só conseguia imaginar o que teria dentro daquela caixa de sapatos embrulhada na sacola plástica e que o senhor carregava com tanto apreço.

Estranhos eventos aconteceram durante essa viagem. O motorista então, passou a parar a cada 5 quilometros, para deixar passageiros em lugar algum. Eram matos altos, sem luz, sem casas ou qualquer habitação próxima. E a luz do ônibus era acendida, todas as vezes, como se fosse para nós olharmos bem para a cara de cada passageiro que descia.

E assim foi até uma cidadezinha, onde a caixa de sapatos embrulhada no saco plástico desceu junto com o senhor. Eu poderia descansar, enfim. Mas o que acontece é que com essas paradas iluminadas, as pessoas que dormem, acordam, e foi o que ocorreu com um dos rapazes que dormia a meu Sudoeste que, então, apossou-se do lugar do senhor da caixa. Por mim, não tinha problema algum, até ver sua mão indo em direção ao painel da poltrona. Assim, ele acendeu a luz, que numa nova versão da Viação, parece uma lanterna e era posicionada diretamente para à minha poltrona, no caso.
Nem sequer um telefonema para minha saudade aliviaria minha tensão naquele momento. E não bastasse isso, ele a desligava e ligava constantemente, porque seu mp3 não possuía a mesma luz da nossa querida moça lá de trás e ele precisava de iluminação, para escolher suas músicas. E eu, para uma saída dali.
Eu estava no inferno.

Depois de 74 paradas para buscar e deixar pessoas, cachorros, sacolas e comidas, minha paciência estava esgotada e me senti como uma psicopata, meus olhos tremiam, minha mão estava gelada, meu coração palpitava. Se houvesse mais uma parada, em algum lugar estranho, para algum moço de boné do Collor e bolsa da Petrobrás descer, eu saíria gritando pelo ônibus! E ele parou. Abri a cortina, para analisar friamente, onde seria meu surto e
vi o purgatório: Coronel Xavier Chaves. Cidade vizinha do meu destino.

Sentei, pois já estava em posição de ataque, respirei profundamente, concluindo que em poucos minutos chegaria e indagando se contaria essa situação para meu analista ou deixaria passar... ora.. foram apenas pequenas desavenças entre mim e o resto dos passageiros...

Cheguei na Rodoviária do meu destino e não conseguia descer. E nem precisava, na verdade, ninguém me esperava lá, cutucando insistentemente, no vidro do ônibus. Esperei todos descerem. Tirei meus fones do ouvido, percebi que não ouvi uma música sequer. Peguei minha bolsa e levantei. Do corredor, em frente à poltrona, eu entendi toda a história.

Não foi o Q. que me odiou e conversava sobre assuntos tenebrosos, para me perturbar; nem a menina do mp4 que queria me cegar; nem o moço da blusa azul que queria mutar meu código genético, com seus pequenos prazeres; nem o senhor da caixa de sapato embrulhada com plástico que queria perturbar meus pensamentos; nem o rapaz da lanterna que queria me irritar com o ligar/desligar da lâmpada; e muito menos os passageiros estranhos que desciam em lugares estranhos, só para eu ficar questionando onde é que eles viviam, de onde vinham, quem eram.
A culpada estava ali na minha frente: A POLTRONA 43.
Que me enganou por ser um número primo e me fez ter a paranoia de ser perseguida por todos do ônibus.
Ah...se eu soubesse desde o princípio a maldade que ronda por volta dessa poltrona, teria sentado em uma de número ímpar. É sempre a minha segunda opção, após não ter uma de número primo.
Ah... se eu soubesse...

28 de jul. de 2009

A verdade

Acho que quando passo por períodos difíceis me aflora o lado pensativo.
Até então, minha cabeça fica ocupada por contas negativas, carro estragado, limpar a casa, dar carinho e ração para o Antônio Alfredo, viver o sexto período odioso e dar inúmeras aulas particulares. Meu coração fica ocupado em se manter firme, por perder um amor e por eu ter tão pouco tempo com meu filho.

Então passo um momento difícil, doloroso e, de repente, ocorre uma pausa, um branco (ou preto), uma ausência. E é nesse instante que descubro a verdade. Para mim, a verdade é maligna.


Segundo o Aurélio, maligno é:

1.propenso para o mau;mau, maléfico

2.pernicioso nocivo danoso

3.que atrai ou prognostica o mal ou a desgraça, funesto fatal

4.diz-se de mal que tende a piorar progressivamente e levar à morte

Enfim, a verdade É maligna.

Quando o fato acontece, eu e ela estamos cara a cara e a verdade é totalmente revelada e consigo engoli-la, mesmo com seus espinhos e qualquer outra estrutura afiada que essas coisas malignas têm. E a digestão é feita como uma água gelada depois de uma tarde inteira de sede e, no instante seguinte, eu me liberto.

De repente, fecho os olhos e percebo que não há mais nada em mim e, assim, uma nova pessoa surgiu. Melhor ou pior, não sei, mas que há mudança é inegável.

E ela é, segundo Camila:

1.propensa para o bem;

2.benéfica;

3.que atrai ou prognostica o bem, a graça e nos leva à vida;

4.é um bem que tende a melhorar progressivamente e levar ao êxtase, até que outra verdade seja revelada.

Porque o êxtase é um momento imaginário, com um cenário maravilhoso e marionetes altamente inteligentes para nos fazer acreditar que tudo é real.



E como já dizia uma sábia amiga de coração enorme, ainda bem que saudade não mata, só machuca.

E como machuca...


Texto de primeiro de maio de 2007. Restaurado e publicado!

Bem...sou mãe, um pouco ausente, não porque eu queira, mas sou totalmente dedicada e apaixonada pelo meu filho..


Leio sempre o jornal do dia anterior, durante o café, pois não tive tempo de lê-lo ontem e porque quando acordo, o do dia ainda não chegou. Acostumei com isso e sinto falta quando o jornal de ontem, por qualquer razão do destino, não está na mesa do café. Pulo a parte de política, que, além de me entediar, causa-me repulsa e decepção. Leio a parte internacional e a parte policial. Não que eu goste de sofrer, mas sempre é bom saber até onde o ser humano é capaz. Até estupro de um bebê de 3 a 4 semanas já li. Leio a parte de cultura e os horários do cinema e os filmes que estrearam, mesmo sabendo que não os irei assistir. Só calculo quanto tempo terei que esperar para poder alugá-los e, caso algum esteja em várias salas de cinema em vários horários, sei que valerá a pena pagar uma fortuna na locadora para pegá-lo assim que lá chegar. Ou não. Harry Potter não me agrada.

Começo o meu dia assim. Conhecedora de todos os crimes os quais não acreditava ser possível e paciente por esperar aquela estréia sair do cinema e abrir caminho para as locadoras.

No carro,escuto um pouco de música para tentar distrair minha mente das obras que me fazem acordar meia hora antes, pois deixam o trânsito caótico. E já começo a imaginar onde encontrarei uma vaga, onde quer que eu vá e quantas voltas terei que dar para achá-la.
Assisto à aula, com sono e olhando constantemente as horas, para poder sair rápido e ficar meia hora a mais com meu filho.

Engulo o almoço, sem saber exatamente o que comi, somente com a certeza de que não é carne.

Levo meu filho para escola, só para vê-lo choramingar a minha ausência quando o deixo na porta.

Isso me faz perceber o quanto nos amamos e o quanto sentimos falta um do outro...

Volto para a faculdade. Durante o resto do dia, alguns eventos matinais se repetem, só que com mais sono e sempre com um pensamento na cabeça: nada.

Porque se eu paro para pensar em tudo o que ocorre em minha vida, nas horas que deixo de ficar com meu filho, nas calorias que ingeri, no quanto de gasolina eu gasto, no barulho esquisito que meu carro faz, na luz laranja que acendeu no painel, se estou descabelada, se tomei meu remédio, se vai dar tempo para assistir um pouco de TV, em quanto tempo falta para eu formar, na dor no ombro e na cabeça, no golpe de kung fu que custo a aprender, no quanto tenho que estudar e, finalmente, se o jornal de hoje vai estar na mesa de café de amanhã, EU PARO de fazer tudo.

E, parada, eu não consigo ficar.
O melhor é acordar, ler o jornal, comer meu cereal, escovar meus dentes, pegar meu chicletes e ligar o carro...
Bem..

Talvez eu deva pensar sobre a luz laranja que insiste em acender no painel...


Observação: Quando escrevi esse texto, eu ainda tinha a alegria de poder almoçar com meu filho e levá-lo à escola. Hoje, não leio mais o jornal de ontem, nem sequer o de hoje. Se o mundo for acabar amanhã, por favor, avise-me. Obrigada.

novos textos antigos




ainda não tive tempo de passar os meus textos antigos para cá, pois o blog não aceita o copiar e colar, uma vez que meus textos estão armazenados no computador. Logo, tenho que copiá-los todos de novo.


amanhã, mais textos.


me pergunto se falo só

27 de jul. de 2009

o meu conto de fadas

Quando eu tinha 8 anos, fiquei presa no portão da garagem do prédio onde morava, fato esse que não sei explicar como ocorreu. Sei que fui salva por um moço uniformizado que trabalhava no posto de gasolina em frente. Ele, heroicamente, atravessou a avenida e usou toda a força contrária para forçar o portão. Assim, fui solta e carregada pelo porteiro do prédio, também uniformizado, até meu apartamento, onde recebi todos os mimos de minha mãe e uma revistinha do Tio Patinhas, do meu pai.


Aos 11 anos, queria ser ufóloga e era capaz de ficar horas olhando para o céu, para encontrar um Ovni e algumas vezes eu os via. Sei que isso alimentou minha vontade de ingressar na profissão por mais dois anos.

Aos 15, fiz minha primeira tatuagem -um desenho que achei bonito em 15 minutos e não sabia o significado.

Aos 17, fiz minha segunda tatuagem -um desenho que achei bonito, mas que escolhi durante vários dias-e um ano depois, fiz a terceira. Neste mesmo ano, aos 18, comecei minha terceira série do segundo grau com desejo de ser arquiteta ou quem sabe, engenheira civil. Mas no meio do ano, optei pela área de Biológicas e decidi que iria tentar vestibular para Nutrição e Educação Física.
Como sempre tive uma paranóia de uma propaganda que inventei na minha cabeça, nesse mesmo ano, pensei que havia um dom para Publicidade e, como em Belo Horizonte o mercado é escasso, era melhor eu tentar em São Paulo.

No início do ano seguinte, eu estava na Nutrição, mesmo depois de ter feito matrícula na Faculdade de Publicidade e Propaganda, em São Paulo. Em 7 meses, larguei o curso. Metade da minha sala eram mulheres neuróticas com calorias. A outra metade, também. E decidi: vou fazer Medicina.

Entre meus 18 e 19 há um longo caminho, o qual não quero percorrer agora, logo vou pular para a véspera dos meus 20 anos. Para ser exata, 13 de julho de 2003. Data histórica para mim e que provavelmente só eu sei o por quê e, agora, qualquer cidadão que esteja disposto a ler esse texto.
Foi a data da famosa DUM, pois em agosto eu estava grávida. Também não vou explicar o que é a DUM, se houver um interessado, estou certa que o Google lhe dará a resposta em poucos segundos.

Assim, aos 19 eu me encontrava com um pequeno ser dentro de mim. Uma situação inesperada, assustadora e nada agradável. No início, você dorme demais, come demais e vomita demais; no final, você ainda come demais, respira de menos e dorme de menos, porque urina demais, durante a noite. E assim, com uma barriga pesada, mau humor pela noite mal dormida e fome constante vi meu desejo de ser médica ir embora junto com cada pinguinho de urina da madrugada.

Mas aos 20 anos, vivi a maior emoção da minha vida. No início do dia 2 de abril de 2004, eu comecei a sentir dores estranhas e imaginei que seriam as tais contrações, mas não comuniquei a ninguém, pois não queria fazer falso alarme. Aquela dor me incomodava e aumentava, mas eu imaginava que era meu filhote brincando de qualquer coisa dentro do útero, que deveria, então, estar esbarrando em qualquer outra parte de mim. No fim do dia, eu já sabia que aquela noite eu veria meu pequeno. Eu, que nunca havia segurado um bebê na vida.

Fui para o hospital na madrugada e fiquei aliviada de saber que realmente o parto ia ocorrer, mas de repente, fiquei assustada de COMO ele ia ocorrer. Até então, eu nunca tinha pensando nisso.

Tudo seguiu bem até que minha médica me entregou no colo aquele bebê tão pequeno, com gosminhas em sua volta, de olhinho fechadinho, com os cinco dedinhos em cada mão, no dia 3 de abril. Não tem como explicar. Era aquele serzinho que estava dentro de mim. E só o que eu pensava era "Meu filho, se você soubesse o que eu passei para você estar aqui.." . Mas ali, tudo tinha valido a pena. E ele abriu os olhinhos e foi quando percebi que ele só passou férias na minha barriga, durante os nove meses. Ele era a cara do pai. Mas como eram lindos aqueles olhinhos puxados e que olhavam para mim. Meu filho. Logo veio uma enfermeira e o tirou com a desculpa de limpar as gosminhas que eu disse não importar!! A cada dia aprendo mais coisas sobre meu filho e aprendo mais ainda com meu filho.

Meu filho é minha vida.

E ainda é a cara do pai.

Amei pouquíssimas vezes na vida, falo assim para não falar a quantidade. Seria expor as pessoas que sabem quem são. Todos eram Príncipes Encantados, que tempo depois mostraram-se piores que o Lobo Mau que, coitado, só sentia fome. E não convém falar qual tipo de pessoas eles se mostraram depois, exatamente por eles saberem quem são e porque dói lembrar. Mas confesso que se fantasiar de Príncipe é muita covardia, porque nós, mulheres, somos criadas com histórias de Contos de Fadas. A Princesa sentiu a ervilha embaixo de não sei quantos colchões e o Príncipe viu que ela era sua amada; o Príncipe da Cinderela procurou em todas as mulheres do Reino qual era a dona do sapatinho de cristal; o de Bela Adormecida lutou contra o dragão; o da Branca de Neve.... hum...esse não fez nada...ele só estava de passagem e deu o beijo para acordá-la. Fomos criadas assim e por pior que possamos parecer sempre estamos à procura do nosso príncipe. Os meus poucos amores pareciam príncipes e eu caí na fala do Narrador "And they lived hapilly ever after" ... Como acreditei..

Hoje, pouco sei. As únicas certezas que tenho são:

- Todos os heróis usam uniformes, mas nem sempre com capas voadoras. Dizem que ficam presas em turbinas de avião;
- OVNIs existem, os ETs são amigos e já sei o suficiente deles, para não querer mais me profissionalizar nisso;
-Parto normal não dói!!! O que dói -e muito -são as contrações antes do parto. Então relaxe, tenha seu bebê e não se preocupe com a episiotomia, a não ser que ela seja feita por um acadêmico;
- Meu filho é o mais lindo do mundo e isso é algo que você não deve discutir comigo;
- Consegui passar no vestibular de Medicina tendo meu filho, com 2 anos e 8 meses, sendo que havia ficado sem estudar quase dois anos. Mas com essa vitória, eu aprendi que nunca vou pensar que algo é impossível só porque sou mãe. Pelo contrário, meu filho é minha força, pois quando acordo todos os dias e vejo seu rostinho não há nada que me impeça de ir atrás de um sonho.
- Nunca acredite nas doces palavras de um moço que se mostra exatamente como um Príncipe -seu cabelo brilha ao Sol, sua voz é doce e hipnotizante e diz que você é a mulher por quem ele sempre procurou e sua pele é tão macia..- a verdade: ele fala isso para todas as donzelas do Reino, com objetivo de insuflar seu ego e mostrar para seus colegas príncipes e para seu papai como é capaz de conquistar quem quiser. O que ele quer ganhar? Um belo Cavalo Branco, para percorrer por todos os lugares e ser reconhecido onde for. O que ele realmente ganha? Não sou eu quem vai contar. Nem o Google;
- O que dizem é verdade. Tatuagem não sai, dói e vicia;
- A única solução para não sofrermos mais com os Príncipes: ignorar o Narrador. Porque nós sempre acreditamos que aquele à nossa frente pode ser um e eles sempre se mostram como um.
E quando o Narrador vê esse momento, já professa suas palavras "And they...". Nós acreditamos.

E o que eu quero?

Fazer uma nova tatuagem.

Ter mais filhos, que me dêem vários netos, que encham minha casa no Natal e acreditem em Papai Noel. E que meu filho mais gordinho surja no meio da noite com inúmeros presentes que eu comprei no shopping, pois ainda terei saúde para tal.

Que eu viva o suficiente, para ver meus bisnetos nascerem, mas não tanto, para ficar moribunda e viver com dor.

Que eu consiga formar, pois cada dia que passa é mais difícil permanecer ali.

Que eu me reúna com minhas três irmãs novamente, porque separadas, somos água, semente e terra, uma em cada lugar.

Que eu veja alegria no rosto da minha mãe.

E desejo, enfim, um lobo mau, porque ele não é mau, só tem fome -mau é o Pica-pau. Quem sabe se eu suprir o lobo com alimento, água, carinho e atenção, ele faça suas necessidades fisiológicas no lugar certo e durma ao meu lado, somente para me fazer companhia e esquentar o lado vazio da minha cama?

Onde está aquele caçador?!!

Eu sou amor. E meu amor é verdadeiro. Sempre.

Às vezes, é até melhor viver num Conto de Fadas.








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