Nesse intervalo de tempo, pude arrumar minha mala com os itens essenciais para uma viagem à casa de minha mãe: meu ipod, livros, minha escova de dentes, poucas roupas e meus remédios, claro. Porque todo o resto usufruo da casa, que já possui todos os produtos para higiene pessoal. Isso ocuparia grande parte da minha mala. Além disso, como não saio de casa, fico de pijama o dia inteiro e não preciso de roupas finas, se é que as tenho. É tudo uma maravilha. Minha mala é leve, a viagem é rápida e eu não preciso arrumar a casa. Estou no paraíso.
Então, consigo me contactar com minha amiga que adotará Alfredinho por uns dias (ela tem essa intimidade por assim chamá-lo) e combino de deixá-lo com seus mimos e ração, logo em pouco tempo. Certamente, eu viajaria no ônibus de três da tarde. Porém, meu cão me seguia ansiosamente pela sala, como se percebesse que eu iria
me ausentar. Era nossa primeira separação. Eu não podia ir ao banheiro, que lá estava ele, cabisbaixo; eu lavava a louça acumulada há alguns dias, por causa do frio-quase-nevante-de-BH, e lá estava ele, embaixo da pia, com o olhar distante. Não consegui deixá-lo naquele momento e decidi passar a tarde com meu filhote inter-espécie: Antônio Alfredo. Peguei sua coleira n.1 do Pluto, que já estava empacotada com suas coisas e pus em torno daquela criaturinha tão doce e tão pequenina.Após o passeio, percebi que tinha perdido a hora para a lotação seguinte, a de 16:45. Mas não me importei. O passeio foi bom, pude ficar mais tempo com Alfredinho e deixá-lo na casa da minha amiga. Como foi dolorosa a despedida... Meu pequeno bebê (nossos filhos, mesmo os inter-espécie serão sempre bebês aos nossos olhos) dormia fora de casa, pela primeira vez.
E restou o último ônibus do dia. 19:00.
Cheguei à Rodoviária de Belo Horizonte às 18:58, para ser exata, e o guichê onde compro a passagem tinha sido mudado de lugar devido a obras. Quando encontrei o novo cubículo onde tristes pessoas trabalham, fui informada que compraria diretamente no ônibus. Corri escadaria abaixo, uma cena maravilhosa de se ver!
Milhares de pessoas que moram no interior e estuda
m/trabalham na capital e toda sexta voltam para casa e, se não pegarem o último ônibus de sexta, devem permanecer ilhados nessa cidade, sem a comida da mãe, as brigas dos irmãos e as festinhas nos postinhos.Lá estava eu, quase rolando escadaria e vejo a porta do ônibus se fechando. Aqueles rapazes que trabalham nas Viações adoram esse tipo de passageiro, não é verdade? Aquele que chega atrasado, com mala que deve ser colocada no bagageiro de baixo e ainda não comprou passagem. Bom humor reina solto!
Fui informada de que poderia entrar, escolher a poltrona que quisesse e pagaria lá dentro. Sentei-me numa de número primo, pois sempre assim o faço, e na janela. Abaixei a poltrona, pus os dois fones do meu ipod no ouvido, mesmo sabendo que só um deles funciona e aguardei o rapaz, para eu pagar a passagem e ficar livre, para olhar pela janela.
Quando ele se aproxima, eu já estava com o dinheiro na mão, tirei o fone que não funciona do ouvido, para demonstrar respeito, mas ele falou algo comigo. Então, tive que tirar o fone que funciona e ouvir o que o bom rapaz tinha a dizer: eu não poderia ficar naquela poltrona, que já havia sido vendida e poderia escolher outra.
-Qualquer outra? Na janela?- pergunto com os olhos brilhando.
Ele olha para o papelzinho em sua mão, para conferir as cadeiras disponíveis e eu, refletindo sobre quais cadeiras de número primo e na janela tinham restado.
-Não!-responde ele, malignamente, que eu percebi. -Só restou a 43.
E me apontou o dedo em direção ao fundo ônibus. Não podia ser tão ruim. Era um número primo.
Não achei que haveria problema, apesar de ter percebido um ar de maldade naquele rapaz. Peguei minha bolsa e fui caminhando em direção à poltrona 43. Nesses segundos, podemos olhar a cara de cada passageiro e, caso alguma tragédia aconteça e você sobreviva, você poderá dizer aos jornais: "Ah.. mas ela era uma senhora tão bonita, a da poltrona 22." ou então "É uma pena! O rapaz viajou na terceira fileira à minha frente, na poltrona do corredor, e permaneceu quieto o tempo todo. Pobre rapaz." Pode parecer bobagem, mas qualquer informação é válida, para quem perdeu alguém que ama. É como se eles estivessem conosco, por mais alguns segundos e quem os viu e não os conhecia, os carrega para sempre.
Achei a poltrona 43, após ter passado por um rapaz que usava máscara no rosto, para proteção da Gripe Suína. A viagem seria interessante. Até eu ver quem eram os meus dois vizinhos de poltronas, ao Sudoeste. Eram dois jovens que não têm noção do volume do som de um celular que toca música e acreditam, com sua ingenuidade, que todos gostam d
e funk. Lá estava eu, na poltrona 43 e tentava empurrá-la para trás e não conseguia. Pensei que poderia ser porque ela era bem em frente ao banheiro, mas quando percebi era por falta de orientação do jovem, que não havia percebido que tinha bagageiro para bagagem de mão, na parte de cima e colocou sua maletinha atrás de minha poltrona. Tudo foi resolvido e eu poderia colocar meus fones de volta no ouvido e esperar o rapaz, para eu pagar a passagem e olhar pela janela.O rapaz chegou, eu paguei a passagem e ainda dei dinheiro exato, para ver se fazíamos as pazes, porque acredito que ele criou essa antipatia comigo no momento em que cheguei atrasada. É comum. Minha dentista resolveu meus problemas bucais em três dias, com 25 minutos por dia, pois nos dois dias de avaliação cheguei meia hora atrasada e ouvi ásperas palavras sobre minha falta de pontualidade. E ásperas palavras de um dentista não é bom sinal. Voltando ao ônibus, pensei que tudo estava certo naquele momento e quando pude, finalmente olhar pela janela, tive a leve sensação de que não havia mais nada a ser resolvido. Era só escutar minhas músicas selecionadas, olhar pela janela, enxergar o nada e chegar na casa da minha mãe.
Já viajei esse percurso, com essa Viação, nesse horário, diversas vezes, nunca nessa poltrona, confesso. Mas nunca passei por nada igual. A cada 15 minutos o ônibus parava em meio à escuridão da BR e as luzes que estavam apagadas eram acendidas todas as vezes. O motorista visualizava novos passageiros em cada poste, placa de sinalização e parecia querer nos acordar, para certificar que não eram visões.
Os jovens rapazes ao meu lado dormiram prontamente. Dei um sorriso sozinha, nesse momento. Sabia da bondade deles. O mau estava ao meu Oeste. Eram os dois funcionários da Viação, sendo um deles aquele rapaz, a quem vou chamar de Q., e que parecia me encarar com aqueles olhos malignos a viagem inteira. Como meu fone estragado me permite escutar a convesa alheia, caso esta seja numa altura elevada, começou uma parte sombria do meu pesadelo. Os rapazes começaram a discutir sobre férias vencidas e a reclamar sobre a empresa na qual trabalhavam e em cujo ônibus eu viajava. Depois surgiu uma conversa assustadora sobre futebol e esposas aborrecidas. A altura foi suficiente para meu fone funcionante perder sua potência. Eles queriam me atingir.
Além disso, ao Noroeste de minha poltrona, havia uma moça com um mp4, desses de última geração, que acendia uma luz mais forte que uma lâmpada de 200 watts, cada vez que ela trocava uma música. Falo desse tipo de lâmpada, pois não sei especificar outra. Física nunca me agradou. Mas era uma coisa impressionante! Ela ainda tentava ofuscar a luz, mexendo no seu aparelho, dentro de sua mochila, mas aquela luz não conhece esses limites e a moça, coitada, era ignorante, pois abria toda a parte grande da mochila Company, para trocar de música no seu mp4 brilhante. Aquela luz ofuscava minha vista e não me permitia sequer olhar através da janela e por pouco não me fez levantar da poltrona e gentilmente ensinar a moça a trocar as músicas, sem ter que iluminar todo o ônibus.
O ônibus parou.
Fui incapaz de descer. Estava submersa num pesadelo verdadeiro do qual precisava sair em 15 minutos, para suportar as 2 horas restantes de viagem. Acalmei-me.
E pensei.. lembrei.. chorei...
Porque quando ocorrem eventos como esse, temos vontade de gritar, ligar para alguém e gritar socorro e ouvir que tudo está bem, que vai passar rápido. Como é bom compartilhar... E que saudade senti. E quando comecei a me lembrar de eventos ruins que a saudade também me lembrava e, assim, secar minhas lágrimas, surgiu um sujeito de blusa azul vindo em minha direção e entrou no banheiro do ônibus.
Pus-me a pensar o que leva uma pessoa, que está em uma parada, que vai durar ainda uns 10 minutos, a utilizar o sanitário da lotação?! E meu pensamento foi cortado por um cheiro que adentrou em cada célula de meu corpo e, corre o risco, de ter feito uma mutação séria ali. Não falo de cheiros provenientes do banheiro. Isso não. Falo do cheiro que ele deixou no corredor ao percorrê-lo. Estou certa que, assim como Amélie Poulain tinha o pequeno prazer de mergulhar suas mãos em sacos de grãos, o rapaz da blusa azul gosta de mergulhar suas mãos e braços em panelas de gordura. Ele exalava gordura e estava claro que aquilo não era proveniente de coxinhas ou pastéis fritos. Só poderia ser um pequeno prazer dele que, aproveitava para entrar escondido na lanchonete, enquanto a atendente estava ocupada com todos na parada e mergulhava sua mão na panela. E é claro! Por isso ele não poderia lavar suas mãos e braços no banheiro da parada! Desejo nunca mais encontrar uma pessoa com esse pequeno prazer.
Quando estávamos prestes a sair dali, o Q. chegou para sentar na sua poltrona e perguntei se agora não haveria lugares vagos mais adiante no ônibus. Ele olhou seu papel novamente e repetiu com a mesma sonoridade maligna o "Não!". Nesse momento, pensei que devia estar pagando meus pecados e comecei a chorar. Pois diante de uma fase tão difícil de vida, eu queria somente chegar intacta na casa da minha mãe, para domir 20 horas por dia e nas horas restantes, chorar pelas dores que tenho (dizem que assim resolve) e arrumar maneiras de sorrir. E conversei com Deus e se Ele assim queria que eu passasse as duas horas restantes, assim seria.
Não é que a moça do mp4 desceu na parada?! E assim não foi mais vista e nem sua luz ofuscante! Em seu lugar, um velho senhor, com uma caixa de sapatos embrulhada num saco plástico, na mão. Confesso ter sentido medo daquele embrulho. Parecia que ele carregava ali, um frango assado ou qualquer item alimentício, que ele poderia desembrulhar a qualquer hora. E, dessa forma, não pude olhar pela janela e não enxergar nada. Eu só conseguia imaginar o que teria dentro daquela caixa de sapatos embrulhada na sacola plástica e que o senhor carregava com tanto apreço.Estranhos eventos aconteceram durante essa viagem. O motorista então, passou a parar a cada 5 quilometros, para deixar passageiros em lugar algum. Eram matos altos, sem luz, sem casas ou qualquer habitação próxima. E a luz do ônibus era acendida, todas as vezes, como se fosse para nós olharmos bem para a cara de cada passageiro que descia.
E assim foi até uma cidadezinha, onde a caixa de sapatos embrulhada no saco plástico desceu junto com o senhor. Eu poderia descansar, enfim. Mas o que acontece é que com essas paradas iluminadas, as pessoas que dormem, acordam, e foi o que ocorreu com um dos rapazes que dormia a meu Sudoeste que, então, apossou-se do lugar do senhor da caixa. Por mim, não tinha problema algum, até ver sua mão indo em direção ao painel da poltrona. Assim, ele acendeu a luz, que numa nova versão da Viação, parece uma lanterna e era posicionada diretamente para à minha poltrona, no caso.
Nem sequer um telefonema para minha saudade aliviaria minha tensão naquele momento. E não bastasse isso, ele a desligava e ligava constantemente, porque seu mp3 não possuía a mesma luz da nossa querida moça lá de trás e ele precisava de iluminação, para escolher suas músicas. E eu, para uma saída dali.
Eu estava no inferno.
Depois de 74 paradas para buscar e deixar pessoas, cachorros, sacolas e comidas, minha paciência estava esgotada e me senti como uma psicopata, meus olhos tremiam, minha mão estava gelada, meu coração palpitava. Se houvesse mais uma parada, em algum lugar estranho, para algum moço de boné do Collor e bolsa da Petrobrás descer, eu saíria gritando pelo ônibus! E ele parou. Abri a cortina, para analisar friamente, onde seria meu surto e
vi o purgatório: Coronel Xavier Chaves. Cidade vizinha do meu destino.Sentei, pois já estava em posição de ataque, respirei profundamente, concluindo que em poucos minutos chegaria e indagando se contaria essa situação para meu analista ou deixaria passar... ora.. foram apenas pequenas desavenças entre mim e o resto dos passageiros...
Cheguei na Rodoviária do meu destino e não conseguia descer. E nem precisava, na verdade, ninguém me esperava lá, cutucando insistentemente, no vidro do ônibus. Esperei todos descerem. Tirei meus fones do ouvido, percebi que não ouvi uma música sequer. Peguei minha bolsa e levantei. Do corredor, em frente à poltrona, eu entendi toda a história.
Não foi o Q. que me odiou e conversava sobre assuntos tenebrosos, para me perturbar; nem a menina do mp4 que queria me cegar; nem o moço da blusa azul que queria mutar meu código genético, com seus pequenos prazeres; nem o senhor da caixa de sapato embrulhada com plástico que queria perturbar meus pensamentos; nem o rapaz da lanterna que queria me irritar com o ligar/desligar da lâmpada; e muito menos os passageiros estranhos que desciam em lugares estranhos, só para eu ficar questionando onde é que eles viviam, de onde vinham, quem eram.
Não foi o Q. que me odiou e conversava sobre assuntos tenebrosos, para me perturbar; nem a menina do mp4 que queria me cegar; nem o moço da blusa azul que queria mutar meu código genético, com seus pequenos prazeres; nem o senhor da caixa de sapato embrulhada com plástico que queria perturbar meus pensamentos; nem o rapaz da lanterna que queria me irritar com o ligar/desligar da lâmpada; e muito menos os passageiros estranhos que desciam em lugares estranhos, só para eu ficar questionando onde é que eles viviam, de onde vinham, quem eram.
A culpada estava ali na minha frente: A POLTRONA 43.
Que me enganou por ser um número primo e me fez ter a paranoia de ser perseguida por todos do ônibus.
Ah...se eu soubesse desde o princípio a maldade que ronda por volta dessa poltrona, teria sentado em uma de número ímpar. É sempre a minha segunda opção, após não ter uma de número primo.
Ah...se eu soubesse desde o princípio a maldade que ronda por volta dessa poltrona, teria sentado em uma de número ímpar. É sempre a minha segunda opção, após não ter uma de número primo.
Ah... se eu soubesse...

Camilaa vc está dando nome aos seus personagens igual ao José Saramago!! Muito legal (ao invés de nomes, descrições). Curti (quer dizer, não curti) a poltrona 43. bjokas
ResponderExcluirRaquel